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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Ocupação de escolas e o exercício do duplo poder



“Quero a utopia, quero tudo e mais
Quero a felicidade nos olhos de um pai
Quero a alegria muita gente feliz
Quero que a justiça reine em meu país
Quero a liberdade, quero o vinho e o pão
Quero ser amizade, quero amor, prazer
Quero nossa cidade sempre ensolarada
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver”
Milton Nascimento


 Ocupa Botas, foto 1


O duplo poder se manifesta num estado particular de crise social e foi característica básica das revoluções do século XX. A unidade de poder, condição central para a estabilidade de um regime, existe enquanto os dominantes conseguem impor a toda a sociedade as suas formas econômicas e política, como as únicas possíveis. Mas as formas dos dominantes não são nem nunca serão as únicas.


 Ocupa Botas, foto 2


O espaço das transformações é sempre um campo de disputas que, de tempos em tempos, explodem. “As placas tectónicas da vida econômica e social estão ocultas sob o edifício de uma ordem política que parece estável, mas movem-se”, dizem amigos historiadores.[1] E como movem-se.

Há tempos escrevo e reescrevo no Jornal O Peru Molhado que a escola era como uma panela de pressão, prestes a explodir. O fato é que ela explodiu.

 Ocupa Botas, foto 3


O ambiente escolar se tornou um espaço de penitencia onde todos os agentes que deveriam construí-lo, ao contrário, queriam fugir dele. Torciam para acabar a luz, ansiavam pelo feriado, as férias, que o tempo passasse rápido. São professores deprimidos, gestores atolados em burocracia, inspetores estressados, serventes desmotivados e os estudantes... Como poderiam se salvar?

 Ocupa Botas, foto 4


A resposta tem se dado em Armação dos Búzios, no Colégio Estadual João de Oliveira Botas e em todo o Brasil, na chamada “primavera secundarista”. São dezenas de escolas ocupadas pelos estudantes que se revezam na limpeza e manutenção do cotidiano da escola. No Botas, meditação, saraus de poesia, clubes de leitura, aula de comida saudável, preparação da horta, pintura da quadra, conserto do encanamento, cineclube sobre saneamento, pais cozinhando feijão, discussão sobre sexo e drogas e até mesmo aula. É comum ouvir os estudantes dizerem que nunca aprenderam tanto na escola. De fato como mostra uma pesquisa realizada em São Paulo pelo Instituto Data Popular, a pedido do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) quase a metade dos alunos da rede estadual de ensino do estado paulista (46%) admitiam já ter passado de ano sem ter aprendido a matéria.

 Ocupa Botas, foto 5


Uma pesquisa realizada em 2012 pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e pela ONG Ação Educativa evidenciou que entre os estudantes do ensino superior, 38% não dominam habilidades básicas de leitura e escrita no Brasil. Saem do ensino médio sem cumprir essa etapa fundamental da educação. A UNESCO, em pesquisa divulgada em março de 2014, também indicou que ao menos 175 milhões de jovens de países de média e baixa renda não sabem ler. Deste total, 61% são mulheres.

Será essa a escola que queremos? Os estudantes dizem não. Esta geração que ocupa escolas é o que pode dar fé na educação e na vida em sociedade, pois com eles a política será radicalmente transformada.

Como diz o imortal buziano Milton Nascimento, que nossa cidade seja sempre ensolarada, com os meninos e o povo no poder.

 Luisa Barbosa 


*Luisa é doutora em sociologia (UFRJ), professora de sociologia e filosofia na rede pública de ensino. Autora de Navegar é Preciso (Multifoco, 2015) e Justa Causa pro Patrão(Multifoco, 2013)

BOX - Desfazendo três mitos:

1- A ocupação está atrasando o ano letivo: Atenção: o Estado do Rio de Janeiro tem grande parte dos seus professores em greve, falta porteiro, servente, luz, alimentação. Não é a ocupação que impede o curso do ano letivo. Ele já está comprometido.

2- Os alunos estão sem aula: que nada. Toda semana acontecem aulões preparatórios para o Enem. Além de aulas efetivas sobre cidadania, alimentação saudável, orçamento participativo, vida em sociedade.

3- Os estudantes vão perder o ano sem aprender nada: Esta é a maior lorota de todas. É só conversar com qualquer estudante ocupado para ouvir os relatos do quanto têm aprendido neste momento de ocupação. E não só eles: professores, pais, alunos e comunidade aprendem todos os dias valores de fraternidade, coletivismo e o verdadeiro significado da educação.





[1] Raquel Varela, Valerio Arcary e Felipe Demier. O que é uma Revolução? Colibri, Lisboa, 2015.