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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Vícios do costume

Recentemente realizei uma viagem de 8.000 km, saindo de Búzios e percorrendo o Brasil no sentido noroeste, chegando até à fronteira da Bolívia e à cidade de Lucas do Rio Verde, no Estado do Mato Grosso,quase na fronteira do Estado do Pará. Meus companheiros de viagem foram Sandro Peixoto (ex-Peru Molhado) e Beto (Gráfica Matriz). Não os tivesse como testemunhas, não ousaria produzir o relato a seguir: vimos um interior paulista de Franca até à Santa Fé do Sul, congestionado por lavouras de cana, usinas de álcool e açúcar, plantações de laranja e café e cidades riquíssimas como Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Barretos, Jaguariúna, Ilha Solteira e bandeiras do Brasil, centenas delas, semeadas aqui e acolá como símbolo do orgulho de ser brasileiro. Ultrapassamos o rio Paraná com sua imensidão impressionante e adentramos o Estado de Mato Grosso do Sul, quando, nas duas margens da rodovia BR 364 e por mais de mil quilômetros, entre São Gabriel do Oeste e Rondonópolis, foi possível perceber por que possuímos 400 bilhões de dólares de reserva internacional. Nessa região, vastíssima, o alcance da vista é ocupado por uma lavoura contínua, variando entre as culturas de soja, sorgo, milho e algodão, sempre sombreadas por enormes bandeiras do Brasil, que, pela falta de hábito, nos arrepiava sempre que apareciam. Assim foi durante nosso percurso no Estado de Mato Grosso que percorremos até à fronteira da Bolívia, no rio Guaporé, retomando o rumo norte, passando pelo Chapadão dos Parecis, totalmente tomado pela agricultura de resultado, moderna, eficiente, de alta produtividade, que encanta e entusiasma quem quer que seja que por lá transite. Silos, secadores, colheitadeiras aos milhares, aviões agrícolas, fábricas de rações, criatórios de aves e suínos em cidades modernas, ricas, punjantes em cujo ambiente se respira trabalho, respeito, dignidade e orgulho, muito orgulho de ser brasileiro e produtivo.

Tive a oportunidade de, na minha Fazenda, durante a vacinação de um lote de gado, parar o serviço, chamar um dos peões que embretava o gado, trajado à caráter (chapéu e bota americanos, camisa de pala, perneira de couro para proteger sua calça jeans legítima, lenço no pescoço e uma fivela enorme na cintura) e perguntar-lhe: qual sua profissão? Prontamente respondeu: “peão de boiadeiro”, em sequência arguí: você gosta dela? obtendo como resposta: “me orgulho muito!”. Continuando a prosa: do que mais você se orgulha?, “do meu cadilac”, respondeu-me ele apontando para uma linda mula gateada, orelhas armadas, arreamento repleto de pelegos coloridos e o resto da tralha todo confeccionado em argolas de aço inox, cujas uniões tinham sido tecidas por ele mesmo. Esse homem, como a maioria absoluta dos demais que vivem nesse meio, rudes, autênticos, altivos e orgulhosos, constroem um contexto ambiental onde o roubo, a traição e a ofensa moral, são gravíssimos desvios de conduta. Função dessa gravidade à qual todos são sensíveis, os infratores são severamente punidos, sofrendo restrições da comunidade que os excluem do convívio, quando não os submetem a sofrimentos físicos comuns naquelas paragens. Chamar um homem de ladrão, traidor ou ofender a sua mãe, pode ser motivo para uma séria hospitalização ou um velório precoce.

Claro que meus leitores ambientados aqui em Búzios, vão estranhar esse procedimento, vão creditar essa prática à um barbarismo incompatível com os tempos modernos. Homem prático que sou, procuro em minhas avaliações pessoais, comparar sempre resultados com métodos e neste caso particular, os resultados destes métodos e hábitos, são incomensuravelmente superiores aos obtidos em outros lugares nos quais a habitualidade desssas práticas as vulgarizou a ponto de integrá-las na normalidade do cotidiano, passando assim os infratores despercebidos, eis que a crítica da sociedade afrouxou estes parâmetros.

Outro diferencial não menos importante refere-se ao trabalho juvenil, que naquelas regiões distantes é habitual, corriqueiro e imprescindível. Adolescentes a partir dos 14 anos, incitados pelo exemplo de seus pares, todos envolvidos na produção, buscam freneticamente ocupações através das quais possam se capacitar a merecer respeito e admiração da comunidade. Assim, em nossa visita a Lucas do Rio Verde, pudemos constatar que somente um restaurante funcionava após as 22h, sendo seus frequentadores, todos de meia idade, nenhum adolescente. Esta cidade ostenta duas marcas invejáveis no cenário brasileiro. É a segunda melhor administrada no país e registra a menor relação bolsa-família por nº de habitantes. Será por acaso?

Como vocês sabem, hoje resido em Búzios e boêmio que sou, faço desse convívio, um laboratório de aprendizado. Não temos hino, bandeiras, história, líderes e portanto, não temos exemplos e motivação para trilhar caminhos alternativos. Tenho certeza que permanecer estacionado na mediocridade de nosso ambiente, fará com que amanhã a realidade de nossos filhos e netos, mergulhados nesses exemplos nefastos, nos encha de vergonha e culpa, pois tudo será resultado de nossa criminosa omissão.

Deixo a critério de meus leitores a tarefa de comparar as duas realidades, para encontrar então por si o abismo e a escuridão que separam o hábito que produz resultados e o que produz viciados, ociosos e criminosos.

A esperança reside na percepção de que o voto popular optou por essa mudança radical de que falo, mas ela só acontecerá com muito trabalho, perseverança, tenacidade e honradez. Mudanças se dão mediante homens e projetos, cuidemos para que não nos faltem esses elementos....

Carlos Terra
Pecuarista

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