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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Do Paraíso à Baixada



Cleber Lopez, foto Sonico
Cabo Frio, na década de sessenta, era o refúgio de artistas e intelectuais que aportaram aqui, atraídos pela cidadezinha de ca-sarios simples e por nossa exuberante beleza natural. Era possível vislumbrar o mar de qualquer lugar da cidade. Sentir sua brisa. Seu cheiro. Esse cenário serviu de inspiração para artistas como Pance-tti, Jean Guilhaume, José de Dome, que imortalizaram em óleo sobre tela cenários que não existem mais. O verão cabofriense ganhou fama na literatura de Lygia Fa-gundes Telles, que ambientou aqui o romance "Verão no Áquário"; "O Barquinho", a composição que deu origem a Bossa Nova foi composta no mar de Cabo Frio num domingo de sol; servimos de cenário para o primeiro nu frontal do Cinema Novo. Os moralistas que nos perdoem, mas Norma Ben-guell, na época, não era apenas um símbolo de beleza, mas também de liberdade e ousadia e "Os Cafajestes", se tornaria um clássico e inauguraria um novo jeito de fazer cinema.

A ponte Rio-Niterói, na década de 70 nos atirou no olho do furacão desenvolvimentista. Vivemos a invasão mineira, responsável por um massacre cultural só comparado ao massacre dos Tupinambás, na Guerra de Cabo Frio (1575) — comandado pelo então governador Antônio Salema que exterminou dez mil índios da região. Os mineiros colocaram abaixo nossos casarios para dar lugar a prédios de gosto duvidoso em nome de um turismo que só enriqueceu os empresários da construção civil e os políticos que permitiram que se construísse um paredão de concreto na Praia de Forte e que deveria envergonhar a todos.

A construção civil, como se não bastasse, transformou a cidade num Eldorado, na terra das oportunidades e atraiu turbas das regiões mais pobres do Estado, que aportaram aqui em busca de trabalho, trouxeram suas famílias e nunca mais foram embora. As primeiras favelas surgiram. E cresceram. Incentivamos, afinal, o poetinha, Victorino Carriço, em seu verso mais infeliz, decretou: "Forasteiros, não há forasteiros, em Cabo Frio Frio todos são iguais..."

A Via Lagos, nos anos 90, teve efeitos ainda mais nocivos sobre a região. O pedágio mais caro do Brasil e a falta de mureta central — exemplos da irresponsabilidade e da falta de respeito com o turismo e com a vida humana — não impediram a nova estrada de transformar a região no quintal da Baixada. É mais econômico, apesar do preço do pedágio, frequentar a Praia do Forte que a de Copacabana, se bem que as diferenças entre as duas estão cada vez menores. A Via Lagos também tem servido para escoar para a região a violência e o tráfico das favelas cariocas em processo de "limpeza" para a Copa e as Olimpíadas, enquanto nossas cidades se transformam no tapete sob o qual o lixo vai ser escondido.

Vivemos no paraíso e estamos sendo expulsos dele. Um dia só vai restar os quadros, os livros e a música para lembrar de uma Cabo Frio engolida pela nossa indiferença e destruída pela nossa ganância. A Cabo Frio do futuro, economia aquecida pelos milhões dos royalties, em nada vai lembrar a cidade que inspirou artistas e poetas. O mar está cada vez mais distante; a brisa encurralada por prédios e o cheiro é de fumaça e óleo diesel. Essa cidade já não inspira ninguém. 

Cleber Lopez é jornalista, editor do jornal Interpress